
- Qual o sentido da minha obra? – perguntou Antonio Skármeta bem acomodado entre o jornalista Flavio Ilha e o escritor Luis Fernando Verissimo, na sala O Arquipélago do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, na noite desta quinta-feira (12). Foi apenas uma pergunta retórica, já que nos 40 minutos seguintes o escritor chileno trataria de embasbacar o público ali presente com sua genialidade e o verdadeiro sentido de seu trabalho: a simplicidade.
- Minha obra, desde os primeiros versos até os textos que viraram filmes, tratam de algo sensível, que faz o contato entre o pequeno e o grande, o superficial e o profundo, a subcultura e a grande cultura, o novo com o tradicional. Nos meus contos, busco sempre o público. Quero que as pessoas leiam a história e que, ao mesmo tempo, percebam a linguagem.
Hablando em espanhol, Skármeta começou sua apresentação falando sobre a infância em Buenos Aires. Nascido no Chile, emigrou para a Argentina ainda criança com os pais, que logo se instalaram em um bairro tradicional da capital daquele país. Estrangeiro e sem talentos para o futebol, não foi bem recebido pelas crianças da vizinhança e buscou refúgio nos livros.
Foi por isso que El Chileno – apelido que as crianças do bairro lhe deram – descobriu a literatura e, logo em seguida, seu talento para decorar poesias e recitá-las em público. Na escola, em atividades festivas, passou a ser chamado pelos professores para declamar poemas.
- De propósito, eu escolhia coisas que falassem sobre a fraternidade entre Chile e Argentina.
Da escola para as festinhas de aniversário de crianças, foi um pulo. El Chileno tinha descoberto os poemas românticos e era convidado para todos os eventos da vizinhança. Cheio de “sentimentos ambíguos”, declamava os poemas para as irmãs dos amigos, “mas a bola nunca ia para onde eu queria, eu acabava conquistando mais as mães do que as meninas”, divertiu-se.
Aos 15 anos, de volta a Santiago do Chile, Skármeta se encantou com a música popular, e foi nessa idade que descobriu a cantora brasileira Dalma de Oliveira, para quem compôs uma canção.
- Sempre me identifiquei com as músicas românticas, achava que o personagem sofrido era sempre eu.
Sua habilidade em declamar poesias o levou a prestar um exame de admissão para o curso de teatro na Universidade do Chile. Escolheu apresentar para a comissão avaliadora um poema de Pablo Neruda, que acabou por reprová-lo.
– Culpei o Neruda pelo fim da minha carreira de ator. Então escrevi um livro e fui bater na porta dele. Pedi que ele lesse e me dissesse o que achava. Quando ele me disse que estava bom, tive que colocar um pé sobre o outro no chão para não flutuar. Ele me disse: ‘Mas isso não quer dizer nada, todos os primeiros livros dos escritores chilenos são bons’ – narrou Skármeta, imitando a voz do poeta.
Depois desse primeiro livro, muitos mais vieram, mas o reconhecimento maior veio com O carteiro e o poeta, que tem como personagem o próprio Neruda. A obra foi traduzida em 35 idiomas, virou filme e teve repercussão mundial.
A história continuou sendo narrada, e a luz de Skármeta, El Chileno, brilhou por mais uma hora, culminando com uma sessão de autógrafos da qual puderam fazer parte qualquer um dos títulos de sua obra. Como se deduz, a Feira do Livro e o público porto-alegrense só tem a agradecer por tão precioso encontro.
notícia do
site da Feira do Livro